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Coluna OLHO VIVO – Por Simorion Matos

(24/12/2017)

MEU NATAL DE SAUDADE

Nesta véspera de Natal, quando seres humanos que se consideram modernos e avançados bombardeiam as redes sociais com mensagem frias e mecânicas puxadas do Google, prefiro exercer o meu sereno direito de rememorar os meigos, encantadores e nostálgicos momentos do Natal vivenciado em Monteiro nos tempos da minha infância e da minha juventude.

AQUECIMENTO NOS BARES

Na véspera do Natal, o aquecimento para os festejos começava pela manhã, com uma parada na sinuca de Pinincha, para atualizar as novidades. Ai se iniciava a pesquisa sobre as opções de tira gosto oferecidas por uma dezena de bares onde seriam montadas as rodas de fofocas sadias e de bons papos. O itinerário das farras: Bar de Adjar, Café da Hora, Bar da Brecha, Churrascaria de Jonas Teixeira, Bar de Luzia Gorda, Bar Tetéu, Bar de Luiz Morato, Bar de Augusto Galdino, Bar de Maura, Bar de Alamir (depois de Paulo Dimas).

DIFUSORA

Às 5 horas da tarde, o ponto de parada era a Praça João Pessoa com seu imponente coreto, para ouvir a Difusora. Os céus de Monteiro seriam brindados com a voz maviosa de Luiz Marcelino, apresentando a programação natalina. Além da qualidade musical, ouvíamos a crônica escrita por Aldo Falcão e os belíssimos poemas de Abelardo Pereira dos Santos e Jansen Filho. Enquanto a Difusora tocava, dava-se uma passadinha na Casa Raphael, de Darcílio Gomes Raphael, para comprar os presentes.

NO MEIO DA RUA

Nos anos dourados das noites de Natal, Monteiro tinha em sua rua principal as “tuias de abacaxi’, as barracas com lanches e jogos, a maçã do amor, o rolete de cana, os parques de diversão, destacando-se Parque Lima, Parque Trianon de Pesqueira e, mais recentemente o Parque Monteirense de Adelson Targino.

LAPINHA E MISSA DO GALO

No Salão Paroquial, era montado o presépio retratando o nascimento de Jesus. Tenho lembrança da participação de dona Maria Pereira, de Quiterinha e de dona Aurinha Cavalcante na montagem das lapinhas e muitas senhoras colaboraram com a montagem, ao longo dos anos. Depois de visitar a lapinha, a pedida era assistir a apresentação do Pastoril, comandado por dona Dida e Dona Amélia Quinca, com os cordões Azul e Encarnado.

O ápice da testa era à meia noite, com a celebração da Missa do Nascimento de Jesus. Foram notáveis as celebrações do Monsenhor João Honório de Melo e do Padre Damião Ferreira dos Santos. oH

VALE A PENA RECORDAR

Em tempos de Iphone, Smartphone, Instagam, Facebook e inúmeras parafernálias da modernidade que aliena e provoca uma dependência doentia, quando pessoas “civilizadas” mesmo sentadas lado a lado ficam anos luz de distância entre si separadas pelo zap zap, prefiro o saudosismo de recordar os tempos em que éramos mais humanos, nos confraternizando e vivendo com doçura e companheirismo os reais sentimentos do Natal.

PENSAMENTO DA SEMANA

No Natal deste ano chorei a fome daqueles que Papai Noel não conseguiu encontrar…

(OsCálmi)

COISAS &CASOS

Monólogo a Papai Noel

(Aldemar Paiva)
Não gosto de você, Papai Noel,
também não gosto desse seu papel
de vender ilusões à burguesia…
Se os garotos humildes da cidade
soubessem do seu ódio à humanidade,
jogavam pedras nessa fantasia!

xxxxxxxxxx

Você talvez nem se recorde mais,
cresci depressa e me tornei rapaz
sem esquecer, no entanto o que passou…
Fiz-lhe um bilhete pedindo um presente
e a noite inteira eu esperei contente,
chegou o sol e você não chegou!

xxxxxxxxxx

Dias depois, meu pobre pai, cansado,
trouxe um trenzinho feio, enferrujado,
que me entregou com certa hesitação…
Fechou os olhos e balbuciou:
“É pra você, Papai-Noel mandou…”
e se esquivou, contendo a emoção!

xxxxxxxxxx

Alegre e inocente, nesse caso
pensei que o meu bilhete, com atraso
chegara às suas mãos no fim do mês…
Limpei o trem, dei corda, ele partiu
deu muitas voltas, o meu pai sorriu
e me abraçou pela última vez!

xxxxxxxxxx

O resto só eu pude compreender
quando cresci e comecei a ver
todas as coisas com realidade…
Meu pai chegou um dia e disse a medo:
“_ Onde é que está aquele brinquedo?
Eu vou trocar por outro na cidade!”

xxxxxxxxxx

Dei-lhe o trenzinho quase a soluçar
e como quem não quer abandonar
um mimo que nos deu quem nos quer bem,
disse medroso: _ Eu só queria ele…
Não quero outro brinquedo, quero aquele
e, por favor, não vá levar meu trem!

xxxxxxxxx

Meu pai calou-se e pelo rosto veio
descendo um pranto e eu ainda creio
tão puro e santo só Jesus chorou
Mamãe gritou, ele não deu ouvido,
Bateu a porta com muito ruído
saiu correndo e nunca mais voltou!

xxxxxxxxxx

Você, Papai-Noel, me transformou
num homem que a infância arruinou,
sem pai e sem brinquedos, afinal
dos seus presentes não há um só que sobre
para riqueza do menino pobre
que sonha o ano inteiro com o Natal!

xxxxxxxxxx

Meu pobre pai, doente, mal vestido,
pra não me ver assim desiludido,
comprou por qualquer preço uma ilusão…
e num gesto nobre, humano e decisivo,
foi longe pra trazer-me um lenitivo,
roubando o trem do filho do patrão.

xxxxxxxxxx

Pnsei que viajara No entanto
Depois de grande, minha mãe em pranto
Contou que fora preso e, como réu,
Ninguém a absolvê-lo se atrevia;
Foi definhando até que Deus um dia
Entrou na cela e o libertou pro céu.

Contatos com a coluna: simorionmatos@gmail.com

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Possui atualmente : 1 comentário em Coluna OLHO VIVO – Por Simorion Matos


  • Simorion, você me levou à nostalgia quando li a sua coluna de hoje. Monteirense (irmão de Ivan do Sax), eu pude rememorar tudo o que foi escrito. E ainda acrescentaria às lembranças natalinas de outrora o envio/recebimento dos Cartões de Natal dos Correios, empresa, à época, gerenciada por D. Selma.
    Hoje, o tempo é fugaz e os sentimentos são frios, por consequência da tecnologia que nunca para de avançar – nos distanciando cada vez mais uns dos outros.
    Vou voltar à minha cidade, depois de mais de 20 anos, e tenho, como propósito, justamente isso: fazer um “tour” para ver o que ainda consigo vivenciar e que me remeta aos meus tempos de adolescente (deixei a cidade aos 17; hoje, sou um cinquentão!), apesar do progresso no lugar depois de passados tantos anos.
    Muito obrigado por ter-me proporcionado uma leitura que me encheu de emoção e aumentou a minha saudade, confirmando que eu devo, mesmo, voltar aí…
    Um abraço.
    Aderivan.