::Prefeitura de Monteiro decreta feriados e pontos facultativos neste fim de ano ::Prefeitura de Sumé investe na formação de atletas de Alto Rendimento ::Projeto de reciclagem feito pelo CAPS ADIII embeleza ruas de Monteiro ::Polícia procura por homem suspeito de furar olho de jumento por ciúmes ::Família fica ferida após explosão provocada por vazamento de gás ::Monteiro e outras seis cidades receberão veículos adaptados para deficientes ::Operação desarticula quadrilha de roubo de locadoras de veículos ::Polícia Federal faz busca e apreensão no apartamento de Gilberto Kassab ::TJPB determina retorno de Berg Lima à Prefeitura de Bayeux ::Municípios do Cariri são contemplados com equipamentos agrícolas Malves Supermercados

CONVERSAS SEM PROTOCOLO E SAUDADES DA MUSICALIDADE DE MARCOLINO

(09/01/2018)

Por Zelito Nunes

Algum tempo depois, reencontrei Marcolino, já cantarolando as suas primeiras composições, encostado em algum balcão de cedro das bodegas que frequentava na Prata. A música Rolinha branca já era sucesso nas noites geladas do lugar, na voz de Toinho Cavalo Velho, o seu maior fã na cidade.

Marcolino foi, sem dúvida, um dos poetas e compositores que mais se arrimaram de elementos da natureza na composição do seu belo e pungente trabalho musical. Cacimba nova, Serro-te agudo, Matuto aperreado, Marimbondo e Pássaro carão são, dentre outras muitas, exemplos desse aproveitamento. Em Pássaro carão, a frase ainda ontem eu vi pólvora no chão me deixou curioso: que pólvora seria essa de que falava o poeta?

Não houve tempo pra desfazer a dúvida com o autor do verso. Primeiro, foram os desencontros, depois, a sua partida antes do combinado.

Conversando um dia com o pesquisador recifense Urbano Lima, admirador e amigo de Marcolino, ele me explicou que a tal pólvora eram mosquitinhos microscópicos, que se juntam em milhares, ora no chão, ora em pequenas poças d’água que as primeiras chuvas do inverno deixam na caatinga e que constituem, no imaginário da matutada, uma das “experiências” de bom e promissor inverno.

Pouco “escolado”, como a maioria da sua geração, o poeta se valia com assombrosa espontaneidade desses recursos para tecer a sua duradoura e fabulosa obra poética.

Saudade imprudente foi um hino sertanejo, cristalizado no voz do gigante Dominguinhos. Sala de reboco, na voz de Gonzaga, vive ainda hoje na boca do povo, com a sua magnífica simplicidade.

Ouso dizer que, no período da chamada “Jovem Guarda”, foram as canções de Marcolino que mantiveram a resistência de Gonzaga e o seu baião, contra aquele que, na minha visão, foi um movimento idiota, composto por versões imbecis de músicas estrangeiras e alguns simpatizantes igualmente idiotas, entre os quais estava eu. A Prata, minha e de Marcolino, sofreu as metamorfoses decorrentes de um processo natural de decomposição da cultura de raiz, que a TV ajudou a disseminar.

As bodegas não sobreviveram, as serenatas nas suas noites geladas são hoje notas perdidas na memória de uns poucos. Toinho Cavalo Velho, o primeiro intérprete do poeta, largou a serenata pela palavra do Senhor, trocou o velho e fanhoso violão por uma Bíblia que conduz debaixo do braço, pelas mesmas ruas em que cantava Rolinha branca.

Tudo isso foi depois que o poeta partiu.

Hordas dos chamados “agroboys” invadiram os sertões e litorais com aberrações sonoras que priorizam a pornografia e o desrespeito pela mulher, comportamento que, na visão do poeta Ésio Rafael, já se enquadra, também, numa questão de saúde pública.

Felizmente, Marcolino foi poupado de testemunhar tamanha aberração. Melhor pra ele que, lá de onde está, nos ampara com o legado que deixou aqui na terra.

Do livro “No sertão onde eu vivia”

Faça seu comentário



Possui atualmente : Nenhum comentário em CONVERSAS SEM PROTOCOLO E SAUDADES DA MUSICALIDADE DE MARCOLINO