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MUCUIM, COCOROTE E VEÍM – Por Zelito Nunes

(21/01/2018)

Gente do universo de Chico Pedrosa eram artistas da feira.

Mucuim era um negão magro e comprido, de voz rouca e com um magote de vícios nas costas.

Fabricava um xarope com cascas de abacaxi, que juntava nas feiras da sua região, onde a fruta é abundante.

Colocava as cascas com água e açúcar numa velha e amassada lata de querosene, coberta com um pano velho e preto de grude, “mode as abêas não mexer”, como gostava de dizer.

As “abêa” eram os enxames de abelhas de arapuá que infernizavam a sua vida, atraídas pelo açúcar do “xarope”.

O copo era um só, de alumínio amassado, e que jamais era lavado, até porque não dava tempo.

Mucuim “tibungava” o caneco na lata velha, quando os matutos começavam a chegar, às quatro horas; da lata cheia, não restava um pingo de “xarope”.

Nem pras “abêa”, que, na verdade, eram mais moscas dos que abelhas de aripuá, muito comuns na região.

Uma vez, Mucuim, liso, pediu dinheiro emprestado a outro bebinho, pra comprar o açúcar do “xarope” e, como nunca pagava ao credor, resolveu sabotar o negócio, colocando dentro da lata, sem que ele visse, estrume seco de jumento.

O estrume foi se dissolvendo, até ficar aquela borra preta na superfície da lata.

Sem perceber, Mucuim continuava atendendo à clientela, quando um mais atento questionou:

– Mucuim, que terra preta é essa boiando no meu copo?

O velho Mucuim respondeu na bucha:

– E num é pimenta do reino que mandei buscar na Argentina? Mas o preço é o mesmo, meu negócio é agradar o freguês…

E o apurado? O velho Mucuim torrava no jogo e na cachaça e só ia pegar em dinheiro na próxima feira, da próxima cidade.

Na entressafra do abacaxi, ele “dava um tempo no xarope” e ia bancar jogos nas feiras.

Bancava “essa perde, essa ganha” com velhas cartas de baralho que, nas suas mãos, ganhavam vida, movimento e velocidade suficientes pra lascar qualquer matuto que caísse na besteira de botar dinheiro na parada.

Chico fala também num tal de “isprandim”, que era jogado com quatorze bozós.

Um dia, chegou em Itabaiana, e topou com um sargento brabo que estava prendendo todo mundo.

O sargento e dois soldados abordaram o negão em plena sessão de jogo.

O sargento:

– Nêgo, cadê teus documentos?

Mucuim queria saber lá de documentos!

O negão bateu nos bolsos da camisa e nos quatro da calça e respondeu:

– Perdi!

E o sargento:

– Nêgo, tu não és de perder, tu és de achar… E esse jogo tem roubo ou não tem?

– Sei não, sargento, uns dizem que tem, outros dizem que não…

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