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UM LIVRO COM GOSTO DE MEL E DE CACHAÇA

(20/10/2017)

Por Ramalho Leite

A primeira promessa que fiz a Zélia Almeida data de 1993. Presidindo uma comissão de análise de projetos, ela me procurou para entregar a reivindicação da Associação da Industria do Vestuário do Estado da Paraíba. Os pequenos produtores de roupa queriam 57 milhões de cruzeiros novos. Eu era diretor do Banco do Nordeste e o banco tinha o dinheiro. Prometi lutar pelo pleito. A segunda promessa, estou cumprindo agora: apresentar, com muita honra, para quem ainda não conhece, o seu livro Bem Estar e Riqueza no Brejo de Areia. Confesso meu pecado: apresentei-o, primeiro, a mim mesmo, um brejeiro que não merece perdão, por ter demorado tanto a mergulhar nas brenhas da terra de Pedro Américo e, pelos olhos de Zélia, del iciar-se com a produção da rapadura e da cachaça. Vi-me de volta à infância, reencontrando nas Laranjeiras, os caminhos percorridos do Poço Escuro, onde minha avó, trazida do sertão para a Casa de Caridade do Padre Ibiapina pontificava como viúva e herdeira, do engenho e da filharada do tenente Zé Rodrigues.

O livro de Zélia é uma declaração de amor ao Brejo de Areia. Como analista de projetos e economista renomada, vasculhou a memória e colocou nas suas páginas a visão da criança e da adolescente a testemunhar a evolução econômica e cultural da sua terra. E definiu alicerces: os engenhos, a escola de agronomia e as freiras alemãs fugidas de Hitler. A cidade viveria em torno desses pilares. Os engenhos, na entressafra, aproveitavam seus trabalhadores na produção da agave. Mas a economia de Areia atravessaria várias fases, desde o café, cuja qualidade rivalizava com o centro sul do País, à cana de açúcar, ainda hoje sobrevivendo e fazendo circular a riqueza do município. Antes, p elo açúcar e a sólida rapadura, hoje pelo líquido precioso que passarinho não bebe: a cachaça. Ela retrata o cenário das Laranjeiras, engenho da sua infância: “No centro, o engenho de rapadura, casa das desfibradeiras de agave, a casa do alambique da cachaça e a casa de farinha. Nos altos, terras de maior declividade, sisal ou cana, dependendo da vontade do Doutor. Doutor duro de vontade que, nem sempre, seguia as vontades compatíveis com tecnologias próprias utilizadas nas terras, daquele local. Ele queria que produzisse. Não media produtividade. Como eram verdes meus altos, vales e ribanceiras”. Fala a memorialista e romântica brejeira, sem perder o norte de quem se preocupa com o resultado econômico da atividade do campo que o Doutor não visualizava. As imagens se misturam, as desfibradeiras rosnam enquanto a menina ap recia o leite morno saindo do peito da vaca.

A mocinha pedia pouco. Bastava correr pelos canaviais que sua felicidade estava completa. “Me sentia a rainha do mundo”, confessa. Mas não despregava os olhos da vida que a cercava. Dava para comparar a distância entre a casa grande e o mocambos dos trabalhadores. A escravidão ganhava outras formas, uma delas, era a dependência do barracão. O Mundo Novo, engenho do coronel Cunha Lima, ainda guardava liames com o passado. “Severina conta que lá, há mais de um barracão. São vários. Paga um, sai dinheiro, fica devendo, compra noutro, sai dinheiro e vai rolando o dinheiro pelos barracões do Mundo Novo. Era o único jeito dos filhos comerem mais. Não comem direito… pouca coisa. Ainda fica pendurado para pagar no dia da conta”. Zélia não comenta esse cenário de pobreza e resignação, deixa ao leitor o julgamento.

Depois que surgiu a Usina de Açúcar, diminuiu a produção de rapadura. Os plantadores de cana, passaram a fornecedores da usina. Poucos resistiram à nova ordem. Também, quem comia rapadura, passou a preferir o açúcar refinado. Um dia, narra a autora, perguntou:

“-Pai, quem come rapadura?

– Os pobres do sertão!

– E quando os pobres do sertão ficarem ricos, quem vai comer rapadura? Insistiu. A resposta foi premonitória.

– Melhor produzir aguardente. Aguardente é como uísque, todo mundo gosta.

Depois que a má gestão e a Justiça do Trabalho deram fim à Usina Santa Maria, foi o caminho que restou à economia do brejo: a cachaça. Em algumas áreas, a banana surgiu como fonte de renda. A pecuária, só para consumo familiar. Quem criava boi no brejo, tinha que possuir fazenda no Curimataú para onde levava seu rebanho no inverno. O Barão de Araruna levava seu gado para a fazenda Capivara, em Cacimba de Dentro, fugindo do clima de Bananeiras. O mesmo acontecia com os senhores de engenho de Areia. Um parêntesis: Quando deputado federal, enviei apelo ao Ministério da Educação para que se adotasse a rapadura na merenda escolar. Os engenhos diversificaram a apresentação do produto e a rapadura granulada passou a frequentar a mesa da s escolas. Fecho o parêntesis. “A rapadura em Brejo de Areia era comida para substituir a carne. Junto com a farinha. Eu via. Colocavam a rapadura para adoçar o café. Não tinham dinheiro para comprar açúcar. Ou misturavam na coalhada. Era necessário, útil, mas não dava o prazer de comer, como a cachaça dava para beber, ensina Zélia, para quem, “nas usinas do brejo a pobreza se esconde e existe”.

Depois de reviver a saga dos engenhos e dos que vivem neles e do que produzem, Bem Estar e Riqueza no Brejo de Areia revisita, sob os olhos sonhadores da menina Zélia Almeida, a Escola de Agronomia do Nordeste e o Colégio Santa Rita, duas vertentes que desaguaram na cidade e ajudaram a construir a sua história. Conta que José Américo, o idealizador da escola, em tom de blague arrolou entre as vantagens daquele estabelecimento: vai facilitar o casamento das moças de Areia. O Santa Rita educava as meninas, a Escola trazia os futuros noivos.

Mas não se pense que a irrequieta Zélia Almeida revelou conformação com a falta de emprego e renda resultantes da desativação da Usina ou o crescente número de engenhos de fogo morto. Seu livro se encerra com um projeto de futuro: o aproveitamento do clima, da história e da cultura da cidade como motivos de atração turística. A gastronomia, a cachaça de melhor qualidade, as festas que giram em torno até da banana seriam o apelo para conhecer e, melhor, fazer de Areia, uma segunda residência. Surgiram os condomínios fechados e os hotéis. Falta ocupá-los. Zélia dá a formula.

Brejeiro como Zélia, mergulhei com gosto nas páginas do Brejo de Areia. Como disse antes, foi como reviver o meu passado pelos engenhos dos meus avós. Menino urbano, não me prendia muito ao campo. Era um visitante esporádico. Mas lendo Zélia, degustando sua deliciosa narrativa pelas serras verdes dos contrafortes da Borborema, lamentei o quanto perdi. O que li, me deixou com água na boca, digo melhor, com o gosto do mel de engenho, o sabor da rapadura e o desejo de um gole da melhor cachaça.

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